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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 4


   O ambiente transmitia uma paz secular. O silêncio acentuado pela madrugada enchia de respeito ainda maior o enorme salão abobadado repleto de afrescos barrocos, que combinavam perfeitamente com o belíssimo e delicado painel, cuja pintura cobria quase todo o teto da igreja.
   Àquela hora da madrugada, a igreja estava vazia, a não ser pela única alma humana sentada solitária em um dos enormes bancos.
   Subitamente, o silêncio foi quebrado pelo som de passos que se aproximavam muito calmamente.    Um indivíduo impecavelmente vestido aproximou-se de Rogério e sentou-se no banco imediatamente atrás dele.

- Sempre me impressionou a capacidade artística do ser humano. Não há como negar; este templo é uma verdadeira obra de arte... Apesar de ter sido levantado à custa de muito sangue e lágrimas, enquanto soava a dolorosa música da chibata. A ignorância cobra um preço muito alto à humanidade, enquanto as pessoas se perdem em discursos vazios e sem sentimento real algum.
- É o preço que eu pago, né?
- Não. De forma alguma. Apesar da ignorância, você apenas está pagando por serviços prestados. Há muito que me consideram o ignorante da história, afirmando que perco meu tempo tentando ir na direção oposta à do progresso. No entanto, quem pode afirmar qualquer coisa com absoluta certeza, quando o assunto é tão transcedental? Afinal, se tudo é eterno, talvez todos estes momentos não sejam realmente importantes e nós devêssemos todos relaxar um pouco e aproveitá-los intensamente, se no fim não teremos realmente um fim.
- Você é muito bom com as palavras.
- Ah!... Obra do tempo e da total ausência de reservas em dizer o que penso. Aliás, acho que é uma das razões de as pessoas serem tão infelizes; estão sempre muito preocupadas com regras inúteis e com a importância da opinião que outras pessoas possam ter à respeito do que sentem, pensam e fazem. Liberdade! Vocês temem a liberdade, com receio do preço que possam ter que pagar no futuro.
- Então somos todos covardes. É assim que você nos vê a todos? Um bando de covardes se escondendo de si mesmos.
- De certa forma. Mas já tive orgulho de alguns de vocês, que ousaram e fizeram tremer a tão bela e frágil estrutura social.

   O homem abriu o paletó e tirou uma caixinha prateada de cigarros. Colocou um cigarro nos lábios e o acendeu com um isqueiro dourado.

- É, eu sei. Não deveria estar fumando aqui, não é? Não é o que está pensando?... Você vê? Mesmo depois de tudo que te proporcionei e o qual você viveu com tanta intensidade e volúpia, ainda se prende inconscientemente ao temor e às regras religiosas criadas por homens muitas vezes tremendamente piores que você.
- Muitas são regras que valorizam o melhor do ser humano.
- Você realmente quer estragar teus últimos momentos com uma conversa teológica à essa altura do campeonato? Além de ser muito tarde para crises de consciência, não melhora em nada tua situação perder-se em verborragia barata e moralista, não é? Ora, eu te conheço como ninguém e sei de tudo que você fez, porque sempre estive lá, facilitando a realização de teus desejos.

   O homem deu uma tragada profunda no cigarro, soltando uma longa baforada para o alto.

- Vamos encarar isso numa boa. Você pode ser tão ignorante quanto todo mundo, mas é uma pessoa razoavelmente inteligente, senão, nem com minha ajuda chegaria tão longe e conseguiria se manter no topo por tanto tempo.
- É. Você não fez tudo, né?
- Claro que não. Fiz grande parte, como prometido que faria, mas tua participação foi muito importante para que não só alcançasse tantas vitórias, como para que, principalmente, se mantivesse no topo do mundo.
- No entanto, chegou a hora de perder tudo, né?
- Não! Perder tudo, não! Você ainda será lembrado como um grande empresário e por tudo que realizou. Teus adversários tentarão manchar teu nome, mas tua morte dentro de uma igreja dará um certo ar de grandiosidade ao evento e você será lembrado como alguém que muito realizou. Não se preocupe com tuas queimas de arquivo, com os desvios de verbas públicas, com as fraudes em licitações e com as inúmeras orgias. Nada disso virá à tona, porque muitos outros envolvidos garantirão o sigilo para protegerem a si mesmos.
- Está bem. Vamos logo com isso, então! Como será?
- Da melhor forma que lhe convier. Vamos ver... Tenho uma pistola comigo, no entanto, creio que seria muito espalhafatoso. Tenho uma ideia melhor. Como você não me trouxe problemas e está aceitando cumprir tua parte no contrato sem complicações, vou te oferecer a oportunidade de uma saída mais suave, uma parada cardíaca. Apesar de ser um tanto incômodo, um infarto do miocárdio não mancharia tua tão preciosa imagem social.

   Rogério respirou fundo e assentiu, recostando-se no banco.
   Foi o tempo de recostar a cabeça e não havia mais ninguém na igreja, nem mesmo ele; apenas um corpo bem vestido recostado no banco, como se dormisse profundamente.
   O silêncio foi subitamente quebrado pelo sino, que batia a quarta hora da madrugada.

Continua...

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