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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 3

   De sobre um penhasco, uma menina observa o pôr do sol. Enquanto este vai sumindo no horizonte marítimo, ela abre uma pequena mochila e, pegando vários comprimidos, enfia-os na boca, virando em seguida uma garrafinha de água, que à ajuda a engoli-los. Então senta-se e espera, enquanto observa o céu vermelho escarlate.
   Sua primeira ideia era atirar-se sobre as pedras no fundo da falésia. Com um pouco de sorte, até conseguiria cair nas águas agitadas do mar, mas faltou-lhe coragem. E se por acaso não morresse instantaneamente? - Pensou ela. Não suportaria sequer a ideia de sentir dor. Não. Melhor seriam os barbitúricos; era uma forma mais branda de abandonar sua vida medíocre. - Concluiu.
    Não demorou muito e logo sua visão começou a distorcer. Sua musculatura afrouxou e ela buscou acomodar-se melhor, deitando-se de costas. O céu azul, ainda com alguns tons avermelhados ia escurecendo gradualmente em direção a seus pés. Nunca soube de fato o que chegara primeiro, se a noite do dia ou a noite de sua vida.
   Acordou confusa em meio à escuridão. Não conseguia saber onde estava e nem coordenar pensamentos e movimentos corporais. Estava completamente drogada. Lembrou-se dos comprimidos. Sim. Os Comprimidos. Provavelmente aquela sensação confusa era resultado dos barbitúricos. - Pensou com dificuldade.
   Levantou-se à duras penas e sentiu seu estômago queimar. Não se sentia nada bem.
   Saiu andando a esmo no ambiente que, às vezes era de trevas e outras vezes uma penumbra, onde ela podia ver a silhueta de rochas e uma constante e malcheirosa névoa ocre.
   Escutou o estalido de um chicote e logo sentiu uma dor lancinante no pescoço, enquanto era puxada violentamente para trás.
   Sem saber o que acontecia, sentiu-se chocar de costas contra o chão rochoso e irregular, que lhe provocou dores em vários pontos do corpo simultaneamente.
   Ouviu uma gargalhada.

- Bem-vinda, Cláudia.
- Que... Quem é você? - Disse com dificuldade.
- Um amigo inseparável que lhe aguardava deste lado, enquanto te incentivava a cometer o suicídio.
- Eu... Eu não to entendendo.
- Ah, mas vai entender... Vai entender.

   Então, o estranho ser parcialmente ocultado entre as brumas e a escuridão deu um puxão mais forte e pôs-se a andar, arrastando Cláudia que continuava presa pelo pescoço.
Embora se debatesse, seu esforço era inútil, enquanto não sabia o que era pior, sentir-se sufocada e em profunda agonia, ou as rochas sobre as quais era arrastada de costas e que rasgavam-lhe a carne, dolorosamente penetrando em suas costas.
   De repente, uma luz cintilou no céu, afastando as brumas e, descendo vertiginosamente, chocou-se contra o solo próximo aos dois. A luminosidade era tão intensa, que Cláudia pôde vislumbrar em enorme vale onde não estavam a sós, mas cercados por centenas de milhares de seres, que afastavam-se em debandada, procurando escapar da luz. Também seu algoz desaparecera, provavelmente em fuga, juntamente com aquela turba na escuridão.
   Em meio à luz foi surgindo a silhueta de alguém que vinha em sua direção. Cláudia ainda estava confusa e vomitava uma gosma negra, enquanto lutava para conseguir concatenar as ideias.
   Logo, o ser ganhou a forma de uma menina que parecia ter no máximo quinze anos. Ela aproximou-se e abaixou-se ao lado de Cláudia, segurando-a com cuidado, enquanto tirava uma pequena garrafa de uma bolsa que trazia a tiracolo. Abriu uma pequena válvula e colocou a boca da garrafa nos lábios de Cláudia, que pensou que vomitaria novamente. No entanto, assim que o conteúdo da garrafa deslizou até sua garganta, um agradável frescor percorreu todo seu corpo e todas as dores desapareceram como que por encanto.

- Beba. Beba bastante. - Disse a menina.
- Quem é você? Que lugar é esse?
- Eu sou Anne. E você está no lugar nenhum para onde vem os criminosos da vida.
- Criminosos?! Mas eu não cometi nenhum crime!
- Você cometeu o maior dos crimes, Cláudia; rejeitou aquilo que muitos às vezes esperam milênios para conseguir.
- O que? Eu nunca fiz nada para ninguém?
- Sim, fez. Fez para si mesma.
- Mas eu apenas acabei com minha vida medíocre, mais nada.
- Este foi seu crime. Agora, beba mais um pouco e recobre as forças. Precisamos sair daqui. As forças das trevas estão se reagrupando e eu não estou muito disposta à dar um pau em ninguém agora.

   Cláudia bebeu mais um pouco do conteúdo e devolveu a garrafa para Anne, que olhava seriamente ao redor.
   Anne guardou a garrafa e ajudou Cláudia a se levantar.

- Está conseguindo pensar melhor?
- Sim.
- Então relaxe, que vou tirar a gente daqui.

   Dito isso, Anne abraçou Cláudia. Rapidamente a intensidade luminosa ao redor das duas aumentou, explodindo no ar. No lugar ficou apenas a escuridão e a sinistra névoa, que voltou a se compactar, à medida que alguns semblantes entre horrendos e de profundo sofrimento se acercavam novamente do local.

Continua...

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