segunda-feira, 25 de julho de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 10


Sentada numa espreguiçadeira, Cláudia olhava o céu translúcido, onde, por instantes, podia ver além do que a capacidade humana alcançava. Achava maravilhoso poder ver, mas a habilidade ia e vinha e nunca durava muito tempo. Ficou imaginando o que seria preciso, para que pudesse manter a visão ou, pelo menos, controlá-la. Foi neste momento que, sem que percebesse, escutou a voz amiga e carinhosa a seu lado. Era Fabiano.

- Quando estiver mais acostumada com a realidade de sua imortalidade, isso será muito fácil.
- Ah!… Oi, Fabiano. Isso é outra coisa que ainda não me acostumei.
- É. No início é até mesmo um pouco embaraçoso.
- É. É isso mesmo. Sei lá! As pessoas lendo a mente da gente o tempo todo…
- Não é o tempo todo, Cláudia. No momento, sou responsável pelo teu monitoramento, para que se recupere da forma mais adequada e para tirar tuas dúvidas no que me for possível. Assim que estiveres recuperada, tua privacidade será respeitada e ninguém invadirá tua mente e teus pensamentos estarão seguros.
- Ainda bem. Acho que não confio mundo na minha mente; posso pensar algumas besteiras, mesmo sem querer.
- Está tudo bem. Isso também é normal. Você vai aprender a focar mais. Aliás, vai aprender muitas coisas e outras tantas, você irá relembrar, pois já aprendeu em outras oportunidades na erraticidade.
- Erraticidade?!
- Sim. Os períodos entre uma e outra reencarnações.
- Hum… Sabe, apesar de vocês me tratarem muito bem e eu estar me sentindo cada vez melhor, de vez em quando ainda tenho crises onde sinto muita dor no estômago e sinto como se estivesse perdendo a razão, pois minha mente fica muito confusa e eu sinto algum desespero…
- E é exatamente nestes momentos que viemos para te ajudar. Veja bem, você ainda está se recuperando e o que fez foi muito grave. Vamos amenizar o máximo possível tudo isso que você sente, mas algum incômodo permanecerá, pois só poderá ser completamente sanado através de um descenso para um corpo material.
- E quando eu terei que voltar para a Terra novamente?
- Esta resposta, eu não tenho, Cláudia. Desculpe-me. Essa é uma determinação que vem de altas esferas, quando for oportuno e só nos resta aguardar pacientemente, enquanto estudamos e fazemos de tudo para nos melhorarmos. Assim, nosso retorno tem mais chances de sucesso.
- Acho que eu entendo…

 Cláudia voltou a olhar para o céu, pensando no que Fabiano acabara de lhe dizer. Quanto tempo será que levaria? - Pensava. Então lembrou-se de algo.

-Fabiano..
- Sim.
- E a menina que me salvou? A… Anne? Gostaria muito de vê-la novamente. Sabe… Para agradecê-la.
- Ela esteve aqui algumas vezes, enquanto você estava em repouso recuperador. Talvez ela ainda passe aqui, antes de partir.
- Partir? Ela vai embora?
- Sim. Ela deve retornar a seu corpo.
- Como assim? Ela não está morta?
- Não. Anne é um caso especial. É difícil explicar sobre isso, pois é um caso raríssimo, para não dizer quase que único.
- Você está me deixando muito curiosa a respeito.
- Veja bem… Estamos passando por um momento muito peculiar neste ponto da galáxia e Anne é um espírito chave, pois ela pode influenciar em todo este processo de forma a que tudo aconteça bem, sem grandes tormentas ou pode arrastar-nos por mais um ou dois séculos de dores e sofrimento, o que oneraria consideravelmente todos os servidores da Luz.
- Mas então, por que colocar toda esta responsabilidade nas costas de uma menina? Isso não me parece justo.
- A justiça é muito relativa, quando olhamos com nossas débeis capacidades de abarcar os planos do Alto. Confesso que, se pudéssemos, optaríamos por um caminho diferente. No entanto, a vontade superior parece ter outros planos e não compreendemos ainda qual a real importância de Anne nisso tudo, mas parece que é muito maior do que qualquer um de nós possa realmente imaginar.
- Nossa! Coitada dela. Nem sei o que dizer. Me sinto tão pequena diante de meus próprios problemas que, mal consigo imaginar o que isso deve ser para ela. Que ela possa ter muita ajuda. Ela foi muito legal comigo… Se eu pudesse fazer qualquer coisa para ajudá-la, não pensaria duas vezes.

Fabiano sorriu sereno e, suspirando suavemente, olhou para o horizonte translúcido de cores fabulosas.

Continua...

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Neil Gaiman - "Faça Boa Arte!"


Em 2012, Neil “Sandman” Gaiman fez um belo discurso para os formandos da Universidade de Artes da Filadélfia, que logo foi postado na internet e se espalhou, inspirando muitos jovens artistas.

Os conceitos de arte, sonhos, bravura e a luta que os artistas devem travar, segundo Gaiman, devem sempre ser inspirados pelo objetivo de fazer “boa arte”.

Assista ao discurso de Gaiman legendado.



O MAUSOLÉU


   O sol já não está tão quente. A distância não é tão grande, mas eu também não tenho pressa. Vou andando e percebendo os detalhes, sem necessariamente observá-los diretamente. É apenas ir confirmando tudo que sempre é como é. As mesmas pessoas, os mesmos afazeres, as mesmas vidas repetitivas, como engrenagens de uma gigantesca máquina aparentemente sem sentido, mas que continua funcionando, funcionando, funcionando sem parar. Algumas engrenagens quebram, mas, apesar da comoção, não devem ter grande significação, pois logo tudo volta ao normal, como se a grande máquina se adaptasse.
   A subida é sempre mais dura e, apesar da ausência de pressa, ainda assim, preciso me esforçar um pouco mais. Mesmo andando devagar, posso sentir a poeira entrando pelas minhas narinas e pela minha boca. É uma sensação desagradável o arranhar seco na garganta. 
   Paro um pouco para tossir. Maldita bronquite.
   Há uma brisa muito suave; uma pequena vantagem de se estar subindo.
   Observo mais uma vez o céu de profundo azul. Algumas nuvens soltas surgem no horizonte.
   Preciso continuar subindo. Então retomo a lenta caminhada. Pé ante pé.
   A brisa atenua um pouco a incômoda sensação de falta de ar.
   As casas vão rareando, à medida que subo.
  Alguns passarinhos de fim de tarde pululam entre galhos de algumas árvores na beira da estrada poeirenta. Talvez estejam questionando a razão do caminhante humano; talvez se perguntem o que há por trás da estranha calma; talvez não questionem nada e nem mesmo dão qualquer importância ao ente andante.
    A curva antes do fim é logo ali. Já começo a ver o topo dos portões que vão surgindo aos poucos. A curva parece o trecho mais íngreme e preciso fazer mais esforço para continuar no mesmo ritmo. Ou talvez seja alguma forma de resistência inconsciente; um último grito silencioso da consciência. Na verdade, não importa.
   Antes de abrir um dos portões, volto-me e dou mais uma olhada para a cidade lá embaixo. Uma tentativa de ver diferente, o que sempre foi o mesmo. Talvez pudesse ver agora, algo que me escapou por todos estes anos. Não. Nada. A mesma vista panorâmica de sempre.
   Suspiro entediado.
  Volto-me novamente, abro o portão e entro no cemitério. Vou andando pelas ruelas mal calçadas. Mas, também, quem se importaria com isso? Os residentes não se importam com nada.
  Lápides, cruzes, fotos amarelecidas, datas esquecidas... Ecos silenciosos de um passado qualquer nas entranhas imperscrutáveis do tempo.
   Já posso ver o mausoléu. Ninguém nunca vai lá.
   O sol está descendo.
   Chego à porta, tiro a velha chave do bolso e, colocando-a na fechadura, giro-a com dificuldade, até ouvir as engrenagens ruidosas e enferrujadas culminarem num estalo pesado e surdo. Empurro a porta que reclama, mas abre.
   Entro sem olhar para trás.
   Fecho a porta apoiando as costas no metal frio e centenário. Sou como a porta; sinto-me igualmente engolido por centenas de anos, que não tenho. Ou talvez tenha.
  O sol entra pelas grades das pequenas janelas, marcando e deslizando pelas paredes mórbidas do tempo.
   Fico um tempo ali, olhando o facho de sol.
  Dou alguns passos e deito-me sobre o túmulo de pedra no meio da sala. Despeço-me definitivamente da verticalidade, sem qualquer delicadeza verbal ou intencional.
   O sol toca meu rosto e deixo o brilho ofuscar-me nos seus últimos instantes.
   A escuridão se aproxima.
   Uma lágrima silenciosa e vazia desde de meu olho. Nada sinto e já não sei se penso sequer.
   Vai ficando escura e fria a pequena sala.
  Fecho finalmente os olhos e, quando a penumbra também se despede, restando apenas a total escuridão, tudo para. Não há mais tempo; não há mais espaço. E, finalmente, nada mais importa.
   Encerro, então, o derradeiro ato. Esqueço quem sou. Não há mais razão. Não há desejo. Apenas o nada.
   Sem dor, sem temor e sem desespero, simplesmente interrompo-me e abandono o ar que já não me serve.

Fim.

domingo, 24 de abril de 2016

Crônicas de Luz & Trevas - O Contrato - Parte 9


Tudo parecia tão tranquilo. O aglomerado de nuvens dava a sensação de quietude e, para qualquer um recém-chegado era exatamente este o efeito esperado por quem projetara toda aquela estrutura genial. Como deve ter sido difícil! – Pensou Anne. Não conseguia nem imaginar todo o processo.
Estava tão distraída que não percebeu a aproximação de Miguel, até que este se recostasse ao parapeito da varanda, exatamente a seu lado.

- Lindo, não é?
- Sim.
- Eu estava aqui, quando fizeram tudo.
- Ainda não me acostumei com essa coisa de telepatia. Confesso que, às vezes, tenho essa sensação estranha de ter sido invadida.
- Perdão. Há muito tempo estamos acostumados a compartilhar ideias e sentimentos, que nos deixamos levar pela naturalidade e esquecemos de respeitar os que ainda supervalorizam a privacidade ilusória.
- É difícil se acostumar a compartilhar com todos e o tempo todo, algo tão particular.
- Sim. Por isso mesmo, perdoe-me pela falta de sensibilidade.
- Está tudo bem. Qualquer hora eu acostumo.
- Acho que vai demorar um pouco, Anne.
- É. Pode ser.
- Para isso, a pessoa precisaria permanecer aqui.

Anne olhou para Miguel, entendendo imediatamente a indireta. Miguel, por sua vez, permaneceu contemplando a paisagem nebulosa.

- Estou sendo convidada a me retirar?
- Não é bem assim. Não é uma decisão de ninguém, mas sim uma necessidade natural.
- Miguel, você sabe que não aprecio rodeios...
- Anne, você está viva e precisa voltar. Não há outra alternativa. É preferível que você volte por escolha própria, pois assim será menos doloroso.
- Eu preciso de um tempo para...
- Essa é a questão; não há mais tempo. Há urgência em teu regresso, ou teu corpo entrará em colapso. Há uma missão programada e ele não resistirá muito tempo no estado de inércia, sem a presença de sua alma junto a si. Você tem que voltar!
- Mas...
- Anne, tudo que você tem feito aqui tem ajudado bastante e isso é louvável. Achei até engraçada a forma como lidou com meu irmão Lúcifer, mas por mais que todos façamos aqui trabalhos similares e integrantes deste tipo, ainda não é teu momento de estar aqui e sequer assumir este tipo de trabalho. Há uma tarefa pela metade na Terra; uma tarefa que você precisa realizar. Foi o combinado; se lembra?
- Mas eu achei que tivesse fracassado...
- Não há de fato fracasso real; ainda mais quando há vida no corpo físico.
- Não sei o que fazer, Miguel. E se retornasse continuaria sem saber que rumo tomar.
- Nós te ajudaremos no teu retorno. E sobre tua tarefa... Bom, mesmo sendo uma tarefa, de certo ponto de vista, hercúlea, ainda assim, você sempre teve amparo. Ou você pensa que é todo mundo que encontra facilmente com tantos avatares em projeção astral? Isso só acontece contigo, porque você tem uma missão especial e precisa de suporte espiritual condizente com a dificuldade do que tem a realizar. Você continuará tendo esse suporte. Volte aos estudos, quando estiver de volta à Terra. Não se antecipe. Há muito o que aprender em Shamballa. Apesar de o tempo urgir, ainda é possível que você se dedique aos estudos e se prepare melhor para o que virá.
- Kraemer?
- Sim. Mas apesar de ele ser uma peça fundamental em todo este processo, ajudando que a balança possa pender para o lado certo, no caso de você conseguir realizar parte de tua tarefa, há algo muito maior por trás e que vai precisar que vocês estejam realmente de acordo com o esperado, para que tudo caminhe como o planejamento superior.

Anne pensou um pouco e deu um longo suspiro.

- Está bem. Eu vou voltar.

Miguel sorriu para ela, pousando a mão em seu ombro.

- Nós estaremos com você, na medida que nos for permitido.
- Eu agradeço, Miguel. Sinto que vou precisar muito.

Continua...

domingo, 3 de abril de 2016

Deguste Anne Blind GRATUITAMENTE!

Deguste um pouquinho de meu novo livro Anne Blind entre Luz & Trevas GRATUITAMENTE!

Conheça um pouco da história dessa menina cega e perdida entre seu estranho passado e um perigoso futuro.

Basta clicar na imagem!


Ah! Só uma dica: As Crônicas de Luz & Trevas que estão rolando no blog, divididas em capítulos, acontecem entre este primeiro volume e o próximo.


sábado, 26 de março de 2016

Crônicas de Luz & Trevas – O Contrato – Parte 8


  De uma hora para outra toda a paisagem mudou. Toda a turbulência infernal se transformou numa quietude sepulcral.
  Anne andava sem perder a atenção. Lúcifer estava a seu lado e desistira de continuar tentando entabular uma conversa; ficou claro que ela não diria qualquer coisa, quando depois de algum tempo simplesmente pareceu ignorar os assuntos triviais que ele soltava no ar, um após outro. Ela limitava-se a comentários e perguntas pertinentes a direção correta.
  Assim, atravessaram a entrada de um belo prédio, em meio aos escombros ao redor. Parecia que houvera sido construído há pouco tempo, muito embora destoasse completamente do devastado ambiente circundante.
  Subiram uma escada rolante e logo estavam diante de uma enorme porta de vidro.
  Anne olhou para Lúcifer, que percebeu que ela esperava maiores explicações.

- Hm... O que esperava? Um caldeirão? Ele é muito útil! Sua determinação e entrega lhe fazem um grande profissional. E se tem uma coisa que eu sou, é sensato. Tenho ótimo faro para talentos humanos.
- O que ele faz aqui?
- Ora, o que mais? Trabalha para mim. Administrar este maldito lugar não é nada fácil. E já que não tenho outra alternativa à não ser continuar responsável por isso tudo, nada mais lógico do que me aproveitar de espíritos talentosos como ele.
- Então o pagamento do pacto que fez com ele é trabalhar eternamente para você?
- De certa forma, sim. Nós dois sabemos bem que esse papo de eternidade só serve para nós como espíritos diante da existência, mas que tudo mais é temporário. Ele ficará aqui até perceber que não precisa mais disso e que pode galgar novo degrau evolutivo, tomando simplesmente a decisão de fazer o bem. Enquanto isso, ele vai se purificando e sofrendo as dores de ter cometido tantos abusos em vida, como é próprio de todo egoísta. E, no mais, convenhamos, ele não precisa saber de redenção agora, não é?
- Lúcifer, acho que você vai ter que buscar outro administrador para colocar no lugar dele, pois tenho outros planos para Rogério. Como já disse, ele não deveria estar aqui e teu contrato não vale nada, além de uma simples pressão psicológica na mente ignorante. Dessa vez você escolheu muito mal.
- Olha, escute aqui...
- Escute aqui você, anjo! Ele vai comigo e ponto final.
- Não se esqueça que você é apenas uma mortal, Anne; prisioneira de um corpo carnal.
- Mortal? Pelo que sei, sou tão apenas espírito quanto você.
- Eu sou um anjo, querida.
- Não passa de um espírito mais velho e teimoso, que não quer ver a Verdade embaixo do próprio nariz. Até quando você vai ficar nadando contra a corrente, Lúcifer? O universo foi criado para evoluir sempre. Não vê que teu esforço não serve de nada?
- Toda essa tua segurança é muito interessante e também muito ingênua, querida. Você acha que estou nessa posição porque quero? Estou aqui porque todo o restante prefere posar de anjinhos por aí, do que colocar a mão na massa e se dedicar ao trabalho duro de ajudar todos estes espíritos, temporariamente desgraçados, a despertarem por si próprios. Esta aqui é a parte mais difícil; dar a chance para que através de seus próprios pecados e do sofrimento decorrente destes, se arrependam de verdade e resolvam se melhorarem de coração. Você acha que eu gosto desta paisagem devastada e de ficar escutando gemidos e lamentações? Eu sou um anjo! Fui criado para criar e admirar coisas belas, não esta paisagem devastada e horrível. Não fui eu quem criou e continua criando isto tudo. Os autores destes vales monstruosos são as mentes humanas de espíritos com ideias distorcidas por egoísmo e lascívia. Esse “mundo” é resultado dessas mentes doentias e cabe a mim administrá-lo, de forma que sirva para o propósito evolutivo.
- Mas você se diverte com isso.
- Claro! Você acha que eu deveria ficar eternamente contrariado por receber esta missão? Se é para fazer o trabalho sujo, que pelo menos possamos nos divertir com isso. Como vocês mesmo dizem na Terra, “Está no inferno? Abraça o capeta!” Mas o tempo dessas paragens está chegando ao fim. Mudanças se aproximam e a Terra precisa evoluir também. E você tem importante papel nisso tudo. Todo mundo sabe disso nos diversos mundos paralelos.
- Lá vem esse papo de novo. Parece que até você está nessa dança, né? Eu morri, Lúcifer! Não posso mais fazer nada; se é que realmente pude algum dia. Portanto, esse papo já era; vão ter que arrumar outro pra Cristo.
- Morreu? Há! Há! Há! Ora, vejam só! Toda sabichona e, no entanto, não consegue nem perceber o próprio estado.
- O que você quer dizer com isso?
- Anne Blind, você está mais encarnada do que imagina.
- Mas do que você está falando? Eu morri! Fui atingida mortalmente numa luta contra meu pai.
- Não. Não mesmo. Teu corpo está em coma, em animação suspensa num laboratório de um órgão secreto brasileiro.
- O que?
- Isso mesmo. Você está aqui deste lado porque quer – ou deveria dizer, porque não sabe como sair? Vários meses já passaram desde que essa luta aconteceu e bem já poderias ter retornado ao corpo, se assim desejasse. Mas como desejar algo que depende de um fato que se ignora?

  Anne fora pega de surpresa. Agora, estava pensativa. Se tudo aquilo era verdade, então o jogo seguia em frente e ela estava perdendo tempo. Era preciso voltar.

- Vou levar Rogério comigo e, depois, averiguar toda essa história.
- OK. Vou liberá-lo para você, mas você vai ficar me devendo uma.
- Como é que é? Agora vai querer jogar essa historinha de contrato pra cima de mim?
- Não, querida. Você compreende bem como as coisas funcionam. Eu estaria insultado tua inteligência, se assim agisse. Só estou dizendo que gostaria de ter retribuído esse favor, quando precisar. No mais, você poderá recusar, se assim lhe aprouver. Embora, eu acredite que não recusará.
- Veremos, Lúcifer. Veremos.

  Lúcifer foi até Rogério, que trabalhava atrás de uma enorme mesa de escritório.

- Muito bem, Rogério. Parece que terei de dispensá-lo de teus serviços. Alguém veio buscar-te.
- Mas... Para onde vai me levar?
- Desconheço. Mas acredito que para um lugar muito mais agradável.

  Rogério levantou-se e Lúcifer o conduziu até Anne.

- Oi, Rogério. Eu sou Anne e vim para te conduzir até uma colônia espiritual mais elevada, onde será devidamente tratado e instruído.
- Não sei o que dizer...
- Não precisa dizer nada. Logo tudo será esclarecido. Vamos.

  Rogério acompanhou Anne e, depois de alguns passos, os dois tornaram-se translúcidos e luminosos, partindo em disparada pelo céu sombrio, tal qual flecha de luz.

Continua...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Crônicas de Luz & Trevas – O Contrato – Parte 7


  Uma tormenta apocalíptica tomava tudo ao seu redor, mas ainda assim, Anne caminhava determinada.
    Seres observavam por entre escombros, enquanto a bruma furiosa e incandescente atravessava toda a região em ruínas à toda velocidade, transformando o lugar no mais perfeito retrato do inferno.
   Olhar afiado, Anne seguia em frente. Subitamente tudo parou, como se o tempo congelasse. Anne olhou ao redor e deu com um homem muito bem vestido e sorridente.

- Olá, Anne Blind. O que te traz a meu reino?
- Quem é você?
- Tenho muitos nomes, mas...
- Deixe de palhaçada e diga logo teu nome.
- Oh! Mas quanta agressividade! Este não é nem de longe o comportamento que se espera de uma visita.
- Não estou te visitando e este não é teu reino, porque ele não existe; é apenas uma ilusão criada por formas pensamento de todos os espíritos ignorantes e desequilibrados. Então, vê se desce do palco e diga logo teu nome.
- Está bem. Eu sou a Estrela Matutina.
- Vênus?
- É. Apesar de a mitologia romana me ver como um arquétipo feminino, prefiro a figura masculina.
- E o que você tem a ver com esse lugar, afinal? Essa condição parece mais o inferno.
- Confesso que te subestimei, Anne Blind. Acreditei que manter a velha imagem dantesca impressionaria mais. No entanto, você é bem mais esperta do que imaginei, apesar de não supor o óbvio. Estrela Matutina, Vênus, A Primeira Estrela, o Primeiro Anjo...
- Lúcifer.
- Oh! Finalmente, querida. Mas refiro Lux.
- Olha aqui, não quero papo contigo.
- Ora, se não quer papo comigo, o que está fazendo aqui?
- Quero a última vítima de teus contratos infames; ele devia estar aqui.
- Contratos são contratos e devem ser respeitados.
- Uma invenção tua e sem qualquer valor real. Você os faz acreditar que te devem algo e você se diverte com este consentimento ridículo e enganoso.
- Mas, mesmo assim, um consentimento.
- Bom, já disse que não quero papo contigo. Se você não vai me dizer onde ele está, vou achar sozinha.
- Aqui quem manda sou eu, menina. E você não passa de uma mortal, cujo corpo está metido numa geladeira por aí.
- Aqui sou tão imortal quanto você, anjinho. Agora, saia da minha frente e não me amole.

    Anne o empurra com o ombro, tirando-o de seu caminho, à medida que continua andando.

- Ei! Isso foi extremamente grosseiro! Acho que terei que comer o teu fígado, por isso.

   Anne volta-se rapidamente, segurando o pescoço de Lúcifer com uma das mãos e, jogando-o no chão, pressiona-o contra o solo, sem soltar seu pescoço. Os olhos d a menina brilham num fulgor vermelho intenso.

- Já disse: se não vai me ajudar, então saia do meu caminho, anjo.

Lúcifer engasgou por algum momento sob a pressão da mão de Anne, mas em seguida começou a rir. Anne surpreendeu-se.

- Bravo! Bravo! Maravilha! OK! OK! Não fique brava. Há muito tempo que não sou dado a batalhas. Tudo bem. O que há de importante nesse carinha, pra você se dar a todo esse trabalho?
- Não te interessam anjo.
- Ah, deixa disso, vai! Será que dá pra me soltar? Não está nada confortável essa posição. Confesso que prefiro posições mais sensuais.

   Anne dá um suspiro. Seus olhos voltam ao normal e ela o solta.

- Ah! Bem melhor assim. E então? Vai me contar ou não?
- Não. E você vai me dizer onde ele está ou não?
- Se eu não te disser, você vai continuar procurando, não é?

   Anne consentiu com a cabeça.

- OK! OK! Vou te levar até ele. Mas vou lamentar muito; foi a melhor alma dos últimos tempos.
- Espírito.
- O que?
- Espírito. Alma é quando está num corpo. Fora de um é só um espírito. Para ser alma tem que ser de algum corpo.
- Ah, sim... Vocês mortais e sua apreciação por definições etc., etc...

   Os dois foram andando e a paisagem voltou a se agitar atrás deles.

   Continua...